10.11.09

all of a sudden, i miss everyone



O quotidiano é uma granada silenciosa e silenciosos são os seus estilhaços - as presenças que o habitam - cravando-se no nosso corpo. Depois pergunta-nos sempre: estás completo, não estavas?


(fotograma de A Woman Under The Influence, de John Cassavetes, EUA, 1974, com a minha maior-que-todas Gena Rowlands)

more nude scenes



Se ainda não tiverem percebido: o corpo revela mais do que o corpo. Mas principalmente: a maior exposição é sempre subterrânea e são sempre comoventes, mesmo quando obscenos, os que se despem para nós exibindo a sua verdadeira natureza. Importa pouco se falam de corpo encolhido ou desdobrado - o que importa é para além do corpo. Há também aqueles que, despindo-se, exibem a nossa própria natureza. É por isso que toda a arte que interessa é um acto de nudez. Entre a comoção e o reflexo.


(fotograma de Persona, de Ingmar Bergman, Suécia, 1966)

nude scenes



Se não tiverem percebido: confunde-se muito nudez com nudez.


(fotograma de Mulholland Drive, de David Lynch, França/EUA, 2001)

9.11.09

their body's a zombie for you



Neste exacto momento, não quero saber da (oh que estranha e doce) música que provavelmente já conhecem, quero saber da inocência. Andam por ali crianças muitas em coro a cantar o indevido e quero dizer que tudo me parece muito bem. Não há como um pouco de perversão (da que não se inscreve no Código Penal) para nos empurrar do lugar onde estamos confortavelmente sentados. Deixar as criancinhas cantar amores sinistros é um exemplo possível do que eu faria se pudesse, mas o Ryan Gosling pediu-lhes primeiro e estou-lhe grato. Cantam partes de uma equação que ainda desconhecem, mas se tantos adultos o fazem, porque não deixá-las dinamitar-nos como ninguém a indiferença?


(fotografia dos Dead Man's Bones e respectivo coro de inocentes crianças, por Hama Sanders)

undressed in their best clothes



Há que expor a carne, e nisso o inverno não deve nada ao verão. (As minúsculas são por conta da casa - há quem sobreponha as estações do ano aos corpos, mas não aqui.) Os que precisam de se despir para se despirem foram com toda a certeza privados de um sentido que não aparece na lista oficial de cinco.


(fotograma de Naissance des Pieuvres, de Céline Sciamma, França, 2007)

6.11.09

i met a girl wounded in hatred



O ponto fraco do ódio é o arrependimento. O ódio é um fraco conselheiro, limita-se a partir todos os espelhos da casa e a esperar que ninguém repare. O que é frequente. Porque é mais um mecanismo de defesa do que de ataque - para alguns, uma necessidade. Depois há quem prolongue o engano e há quem, com menos talento, o deixe quebrar-se. Nem sempre o arrependimento surge a tempo e nunca é dócil. Quando chega, chega lento corroendo como um ácido até ao osso. Não há dor que mais doa do que a que se insinua fora de prazo.


(fotograma de Buffalo '66, de Vincent Gallo, EUA, 1998)

5.11.09

crazy people in love



Surge igualmente glorioso, delicado e terrivelmente sedutor, dócil e acariciador, feminino, quase devasso.*

Isto é um enólogo a descrever um vinho - e lembro que um vinho é um vinho é um vinho - e isto sou eu devastado, a sentir-me um bruto insensível por falhar o épico erótico que alguns conseguem viver num copo de vidro.


*Rui Falcão, Porto Vintage 2007, uma declaração atípica in Fugas (Público 17.10.09)

(fotograma de Sideways, de Alexander Payne, EUA, 2004)

4.11.09

men of sin



Mas não acredito nos seus vícios e gostaria de apertar a mão a este homem que, sem dúvida, nunca beijou a barriga de nenhuma mulher.*

A Henri Gérard adivinha-se um sorriso trocista ao ouvir Monsieur Vernet confessar os vícios que não tem. Há ali um desprezo morno pelo bom comportamento do seu anfitrião, sem qualquer inveja, apenas pena. Coitado do bom homem. A santidade caiu em desuso. Já não é apenas difícil confiar na pureza; é difícil apreciá-la, a não ser como uma curiosidade, provavelmente exposta num frasco de formol ou num circo de aberrações. É muito contemporânea, esta santificação do vício, certo? Errado. Rejeitou-se apenas uma lei antiga: a privação. Já não se peca por desejo mas por imobilidade.


*Jules Renard, O Pendura (Assírio & Alvim, 2009)

(fotograma de Down By Law, de Jim Jarmusch, EUA/RFA, 1986)

he heard a clown crying in the alley



Achei que devia dizer-vos: há uma colectânea tripla do Bob Dylan a 15-euros-15 na Fnac. Vem numa caixinha vermelha bonita com (já adivinharam) 3 cd's que percorrem as músicas certas ao longo de quarenta e sete anos e alguns meses. Chama-se Dylan e é uma menina. Quem tem um espaço na prateleira reservado para o Mr. Bob e nunca soube por onde começar, pode agora demonstrar a sua sabedoria seguindo a sugestão.


(fotografia de Bob Dylan e Suze Rotolo, por Don Hunstein, para a capa de The Freewheelin' Bob Dylan, 1963)

she died a sudden death



Talvez por não conseguir morrer aos bocadinhos como toda a gente (processo a que toda a gente dá outro nome), morreu antes do tempo ao longo de meia dúzia de segundos mal contados. Morre-se sempre em vida mas há quem insista em ir à frente deixando tudo para trás. A verdade é que isto não é sobre ela mas sobre todos os que nos impedem a despedida. E uma despedida não é um aceno, é um momento de crua consciência. A dois. Ainda que as costas se voltem, ainda que a matemática nos imponha uma subtracção irreversível.


(fotograma de The Virgin Suicides, de Sofia Coppola, EUA, 1999)

3.11.09

you just walked away



Eu estava ali - entusiasmado e desacompanhado por poucas dezenas de pessoas num fim de tarde de Agosto - por causa dele. Foi o primeiro concerto dos National e foi memorável e para quase ninguém e devo a minha presença devota a António Sérgio. Um ano antes tinha-me mostrado a About Today, ainda a canção que lhes prefiro, enquanto limpava a casa e o rádio me fazia chegar a Hora do Lobo, meu ritual religioso de anos. Nunca vivi um momento tão sublime com uma esfregona nas mãos. Os profetas deviam ser todos assim.


(fotografia de Pedro Jordão)

29.10.09

how past really works



Como se me tivesses mordido a língua para que me doesse o teu nome.


(fotograma indevidamente cortado de The Virgin Suicides, de Sofia Coppola, EUA, 1999)

22.10.09

we're all behind bars



Há também aquela cena em que a personagem feminina de Um Z e Dois Zeros prefere amputar a perna que lhe resta porque esta se sente muito sozinha. Isto é num filme passado à volta de um zoo e dos seus animais enjaulados e de dois irmãos obcecados com a morte e com a decomposição (que vão filmando metodicamente). É uma história de desaparecimentos graduais e de gente só acompanhada e em que tudo está em obscena exibição. Como se todos vagueassem atrás de grades. A vantagem das metáforas é esta meiguice - com a distância que criam, nem parece que estamos todos ali, pois não?


(fotograma de A Zed & Two Noughts, de Peter Greenaway, Reino Unido/Holanda, 1985)

saving the environment



Tenho esta convicção quase religiosa de que veementemente é o advérbio de modo mais inútil desde a criação do mundo, pelo que apelo à sua rápida reciclagem. Com veemência, obviamente.


(fotograma de An Inconvenient Truth, de Davis Guggenheim, EUA, 2006)

she's so very i don't care



As Bikini Kill ficaram conhecidas por iniciarem o movimento riot grrrl à cabeçada e não pela profundidade das suas letras, mas em I Like Fucking ouve-se a Kathleen Hanna cantar We're not gonna prove nothing, nothing/ Sittin' around watching each other starve e isto é antes dela nos confessar que acredita nas possibilidades radicais do prazer, babe. Um tipo acaba a lembrar-se da infância e dos avisos para não brincar com a comida, mas agora que já somos crescidos sabemos que é nos compassos de espera que se jogam metade dos nossos melhores desastres.


(fotografia das Bikini Kill no início dos anos 90, por alguém)

21.10.09

all those beautiful losers running in the morning



Acorda-se para o quotidiano como quem corre para uma fatalidade, quando no quotidiano - sempre desgovernado pelo que se segue - impera o acaso. Tem a sua piada.


(fotograma de The Virgin Suicides, de Sofia Coppola, EUA, 1999)

20.10.09

blind men



Ocorre-me frequentemente que José Saramago daria um belíssimo Ministro da Propaganda de um regime totalitário. Tem aquele jeitinho safado para simplificar a realidade e editá-la como lhe convém. De resto, o estilo do seu recente discurso anti-religioso é muito século dezanove, pelo que não se compreende tanta surpresa e indignação. O único momento de espanto é um momento de ignorância. Não se espera que um homem inteligente e informado acredite que a generalidade dos cristãos acredita na existência de Adão e Eva e outras figuras simbólicas da Bíblia. Não é preciso ser crente para compreender a sua dimensão metafórica. O ataque de Saramago parte muito desse equívoco grosseiro, ironicamente próprio de um cristão medieval. Só faltou queimar livros.


(fotograma de Ensaio Sobre A Cegueira, de Fernando Meirelles, Canadá/Brasil/Japão, 2008)

19.10.09

on confidence & other lies



Olhar por cima do ombro cansa. Desgasta o osso. Mas insistimos. Não nos poupamos porque não sabemos como. A dependência do olhar alheio é um instinto apurado pela civilização, uma conquista do indivíduo pela sociedade. Nenhum homem é uma ilha porque qualquer afastamento voluntário é uma medição de forças. Somos sempre em relação aos outros. Auto-confiança é uma expressão agradável mas pouco rigorosa. Confiamos na confiança que o outro deposita em nós e pouco mais. Daí que mesmo um egocêntrico (ou principalmente um egocêntrico) não passe de um inseguro legitimado. Estamos sempre a espreitar os que nos espreitam.


(fotograma de Let The Right One In, de Tomas Alfredson, Suécia, 2008)

18.10.09

little pair of windows



A propósito de olhos generosos, nem sempre se entende que a generosidade não se define tanto pelo modo como se dá como pelo modo como se recebe.


(fotograma de Let The Right One In, de Tomas Alfredson, Suécia, 2008)

book of revelations



E ele rasga a frase a meio e revela que deixou para trás, no início, na juventude, aquela lucidez extremada em que tudo parece exacto e ridículo e grotesco. Diz que agora vive em espanto permanente. Não que se tenha tornado mais manso, mas os olhos são agora mais generosos. E eu espantei-me com o espanto do poeta. No estudo que Edgar Pêra ultima sobre Alberto Pimenta, a partir de conversas entre os dois e Joana Amaral Dias, os minutos passam deliciosamente. De todas as revelações, foi no entanto essa renovada voracidade pelo mundo, essa inversão encantada do que é habitual entre os mortais, que mais me impressionou. A facilidade com que o poeta meteu o desencanto no bolso.


(fotograma de Alberto Pimenta (Estudo) - work in progress, de Edgar Pêra, Portugal, 2009)

16.10.09

why is the measure of love loss?



À tempestade não sucede a bonança, mas a exaustão. A que destroços se agarra o cansaço? No meio de tanto entulho, nunca é tão difícil determinar o que fazer como determinar por onde começar. Há quem inicie uma lista de bens perdidos, mas entender a dimensão da perda nunca restituiu a ninguém o seu passado - o irrecuperável. Talvez seja melhor entregarem-se ao acaso. Não há maneira mais certeira de falhar do que ter um alvo.


(fotograma de Last Life In The Universe, de Pen-Ek Ratanaruang, Tailândia/Japão, 2003)

15.10.09

this little pig went to market



Ai que horror, um porco voador. Onde? Seguramente no Parlamento, mas não é isso que me traz até vós. Percebi há pouco que a mesma ciência que nega as asas aos porcos admite a existência de seres bípedes dotados de inteligência e livre arbítrio. Acho tudo isso muito perigoso mas talvez ainda se vá a tempo de dar alguma utilidade à descoberta. Tendemos a ser tardios a descobrir que não eram imaginários os lugares imaginários a que confiávamos todas as nossas fantasias. Quase sempre quando já passou o tempo em que meia dúzia de coisas eram possíveis. Aconselha-se mais atenção.


(fotograma de Fallen Angels, de Wong Kar-Wai, Hong-Kong, 1995)

domestic accidents



Reparei que nas palavras cruzadas paixão correspondia à palavra (de quatro letras) amor. É a mais velha confusão do mundo.


(fotograma de Down By Law, de Jim Jarmusch, EUA/RFA, 1986)

14.10.09

the arty horror show



Quando o poeta disse que tudo vale a pena se a alma não é pequena, não estava com certeza a pensar na banalidade pretensiosa de algumas inaugurações, nos sorrisos impecavelmente engomados no dia anterior, na cultura atirada para as páginas de uma revista social, nas conversas mortas à partida, enquanto um exército de senhores zelosos vai distribuindo flutes com sumo de máquina para nos entreter nos minutos lentos que se enfiam como agulhas debaixo das unhas. E a exposição lá está, pendurada horas antes, como um bonito papel de parede. Tão bonito.


(fotograma de Factory Girl, de George Hickenlooper, EUA, 2006)

13.10.09

master of none



O sentimento de posse é uma tendência suicida. Facilmente aniquila o que quer preservar. Resulta bem com objectos inanimados mas é pouco delicado a pedir a rendição absoluta a quem tem uma palavra a dizer sobre o assunto. Daí que os amantes não tenham nada a aprender com a guerra - entre paredes, a rendição não se ordena, oferece-se. E todos os tratados são condicionados. Tudo o resto é inocência de quem acredita possuir alguém. Quando o mais provável é que lhe tenham entregue um envelope vazio.


(fotograma de Buffalo '66, de Vincent Gallo, EUA, 1998)

the power to the people



Diz um eleitor devidamente identificado pelo Público a propósito das autárquicas: o povo não é assim tão estúpido. O que, com aquela subtileza pelo meio, resume muito do que penso sobre a democracia.


(fotografia de Francisco Leite Madeira via Aventar)